Acordei hoje com a notícia do falecimento de Maria Alberta Menéres, autora de Ulisses, livro que li vezes sem conta, em miúda. Enquanto recordava a história de Ulisses e Penélope, confirmei, uma vez mais, que tanto do que me agrada agora foi plantado há muito tempo. E vejam lá o meu pedacinho favorito deste livro:
O gigante contou-lhe tudo e disse que se chamava Polifemo. E depois foi a vez dele perguntar a Ulisses como é que ele se chamava [...].
- Então não sabes como te chamas? Como te chamas? Como te chamas? Como te chamas???
Ulisses, de cabeça perdida, só lhe soube responder:
- Como me chamo? Como me chamo? Sei lá. Olha, espera, chamo-me… Ninguém.
- Ninguém?! Que diabo de nome te deram, pigmeu! Por isso tu não o
querias dizer. E tinhas razão, lá isso tinhas! Olha que ideia, Ninguém…
E então de repente a cabeça caiu-lhe sobre o peito e adormece profundamente. [...]. O ciclope acorda aos urros [...]
- Ai meus irmãos, acudam-me, acudam-me!
- O que foi, Polifemo?
- Ai meus irmãos, acudam-me, Ninguém quer matar-me...
- Pois não, Polifemo, ninguém te quer matar.
- Não é isso, seus palermas! O que eu estou a dizer é que Ninguém está aqui e Ninguém quer matar-me!
- Pois é, rapaz! É o que nós estamos a perceber muito bem: ninguém está aqui e ninguém te quer matar!
- Não é isso, seus idiotas!
E não havia maneira de se entenderem uns com os outros.
Tinha de envolver nomes, não era? Felizmente, os livros nunca nos deixam.


